quinta-feira, 23 de abril de 2015

AS PARIDEIRAS DO VILAREJO.


BOM DIA, meus amigos!!

No vilarejo que eu tenho meu cafofo, a maioria tem seus filhos de parto normal. Por isso eu não entendo esses números da OMS onde cita que as cesáreas são metade dos partos nos orgãos públicos. Impressionante. A conversa é que "pobre" só faz cesárea se estiver morrendo. São palavras delas pois, como uma pessoa "metida" a escritora e blogueira, o cotidiano delas sempre me atraiu. 

Bem, claro que o PD, ou seja, o parto domiciliar com o é chamado, está em extinção aqui. E eu adoro ouvir os relatos de quem pariu assim, aqui, no século passado (Sec. 20). 

Ontem eu recebi a visita de duas nativas, já passando dos 70 anos. Uma delas, a da foto, minha amiga de longaaa data, vou chamá-la de T. A outra, vou ainda clicar ela, vou chamá-la de L. 

Pois bem, T. teve 14 filhos, todos de parto domiciliar e 10 sobreviveram. Segundo ela, 3 morreram do "má de imbigo"  (tétano) e 1 morreu por  que estava "imbilicado". (circular de cordão). 

Serena, sorridente e por que não dizer, feliz. Segundo ela, nunca se arrependeu da imensa prole mesmo o genitor ter sido uma pessoa difícil de lidar o que acabou com uma separação dolorosa pois naquele tempo, mulher direita não se separava, segundo a mesma. rsr

Vou escrever o diálogo, entre risos e gargalhadas, de mim e ela.

EU: T., me conte seus partos?

T. Contá o que criatura!!! Qual a dificuldade de parir? Eu sempre fiz as minhas coisas. Lavava, mariscava, carregava lenha, água da fonte, limpava, cozinhava e a maioria dos partos, as dor me pegou de jeito, quando eu geralmente estava, ou mariscando ou pegando feixe de lenha. 

EU: Nossa. E vc não tinha ninguem para lhe ajudar quando estava prenha?

T. *gargalhando gostoso*. Você me deixi...kkkk...Não sou frouxa não. Geralmente era bom a dor chegar enquanto eu estava na lida. Daí eu chegava, acendia o fogo a lenha, esquentava a água, tomava um banho e a dor ia apertando, apertando. Quando ela imendava uma na outra, eu corria pro quarto, fazia força e pimba...nascia. 

EU: mas assim, sem uma parteira, uma enfermeira, sei lá..

T. Nunca pari com parteira. Pra que? Eu que tinha que fazer tudo. Mas ela vinha pra cortá o imbingo. e depois cuidar do imbingo o que sempre foi minha agonia e preocupação. Geralmente eu lavava as partes com pedra hume e ficava pronta para outra.

T. SIM E VOCÊ SUA FROUXA, *soltando uma gargalhada* Seus partos foram assim?

EU: oh...ops..kkk...Eu fiz duas cesáreas marcadas. Optei por não sentir essa dor e nem essa agonia.

T. Mas..oxente mulher mas a dor da cesárea é para quem tem coragem. Dói muito mais. OH eu queria ver você parindo aqui, eu iria pegar seu nenen...falou entre a gostosa gargalhada. 

EU: Não. Eu não quis e foi uma opção minha mas sempre me senti "parida". Porque eu participei do processo mesmo anestesiada e também não me senti enganada. Eu tive o direito de escolher e não me arrependo. Até porque, a dor...ah essa dor...não deve ser fácil passar um nenen por um lugar tão estreito..kkkk....eu ria com ela.

T. qui nada. Dor ruim é dor de dente. A dor de parir é uma dor tão gostosa. 

Enquanto ela falava, seu olhar se dirigia ao firmamento e pude captar uma ponta de saudades. 

Quanto a dona L., ela teve apenas uma filha, de parto natural mas não quis me dar detalhes. 

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