Dias atrás, mais uma vez indo ao vilarejo, baixa estação portanto ferry-boat fácil. Uma tarde com um solzinho gostoso e brisa já ficando mais fria do que fresca. Enfim.
Sentados comodamente nos estofados ainda imunes aos mal educados, ou melhor, sentados numa mesinha com uma vista linda de Salvador que se despedia de mim, eis que sentou-se, após pedir licença, um homem de nome Almir. Negro, alto e simpático. E cheio de histórias para contar.
Eu e marido passamos a puxar conversa e eis que ele me conta que vive no vilarejo de Maragogipinho, lugarejo das cerâmicas, dos oleiros. E eu, nazarena da gema, fico toda serelepe quando encontro alguma conterrâneo vicinal, fiquei ainda mais animada ao saber que ele é filho e neto de oleiro.
Hildebrando e Antonio Nazareno, respectivamente avô e pai, oleiros tradicionais de Maragogipinho, inclusive o avô utilizava a antiga, difícil e esquecida técnica da "goma do barro'. Meu Deus, quanta emoção na voz do Almir, ao viajar nas suas lembranças. Cabelos grisalhos, o homem era todo forte mas eu observei suas mãos. MÃOS DE ARTISTAS. Mãos que poderiam fazer do barro, sua arte de viver.
Então, divagando nas suas lembranças, enquanto o Zumbi (o ferry), singrava tranquilamente a Baía de Todos os Santos, eu também naveguei nas lembranças de Almir. Quando ele pontuou que o vô Brando e seu pai traziam as cerâmicas nos saveiros, eu quase chorei. Nossa. Daí eu lhe falei que minha família veraneava em Cacha-Pregos e todos nós íamos de saveiro, de Nazeré a Cacha pois não existiam ainda, nem a "rodage" e muito menos, o ferry. Viajei nas palavras dele. Almir tinha um olhar, um semblante, surfando entre a emoção e o desapontamento.
"Meu pai mandou os filhos todos para estudar na capital. Estudei e virei instrumentador mecânico. Trabalhei muito, viajando pelo interior e em muitas firmas e empresas do Polo. Cansei. Mudei de área, levei a família toda para morar em Maragogipinho. Hoje estou a um passo de me aposentar e se fosse hoje eu não teria largado minha terra e pois é isso que está matando a tradição do barro.
Uma vez, eu trabalhei com um patrão que era ligado a um prefeito e tomei coragem e pedi que eles colocassem nas escolas, na aula de Educação Artistica, a arte da olaria e que colocassem um torno dentro da escola para a prática no turno oposto. Nunca me escutaram. Nossas aulas eram apenas "colar palitos de picolé", concluiu Almir, com os olhos tristes.
FOTOS: Julivan, um nativo de Maragogipinho, fazendo artes em uma olaria em Maragogipinho. Eu tentando fazer. E uma foto do ferry, no dia do nosso encontro com Almir.



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